quarta-feira, 22 de junho de 2011

Janela das saudades

O relógio acabara de tocar seis da tarde quando Clarice se apressou em direção à janela, seus olhos corriam ansiosos pela rua, em busca daquela camisa xadrez e daquele doce sorriso que vinha de encontro ao seu. Então de súbito percebeu que toda sua espera não passava de uma vã ilusão e aos poucos sentiu um nó formar-se em sua garganta, acompanhado do amargo gosto da solidão.
As palavras aos poucos desapareciam do alcance de sua voz, elas formavam um grito interno ensurdecedor, que pedia por atenção e, por vezes tentava escapar por entre seus lábios. Ela queria apenas despejar todo aquele ódio que guardou dentro de si ao perceber que não havia ninguém, nenhum carro em sua porta ao sexto bater dos sinos. Entretanto, ao invés de vomitar todo aquele rancor em forma de palavras sujas, ela apenas repetia consigo mesma “Falai baixo, se falais de amor”¹, pois afinal, o que é o ódio senão o complemento do amor? A paixão sem a ira é como vencer uma guerra sem batalhar, não surte grandes emoções!
Clarice se debruçava sobre o parapeito da janela tentando se adaptar à idéia de que hoje seu amor não viria vê-la. Nunca fora uma garota tão sonhadora a ponto de crer na eternidade das coisas ou naquele “felizes para sempre” que lia nos contos de fadas, mas não acreditar não equivale a não querer, e a dor de se perder um sonho era ruim, ainda que ela não confiasse na veracidade deles.
A verdade é que passamos uma época da vida colecionando emoções, e outra, colecionando saudades ², e para aquela doce garota, agora era tempo de colecionar lembranças do ontem, quando as emoções se mostravam à flor da pele e ela nem mesmo percebia que possuía um verdadeiro depósito de sentimentos. Hoje, ao olhar pela janela ela não via o presente, mas sim as recordações que guardava em sua mente, hoje a janela sobre a qual ela se debruçava fugia do mundo físico e se mostrava presente apenas em suas idéias, onde ela passava seu batom cor de rosa e esperava seu amor buscá-la para um breve passeio no parque.
Agora era tempo de perceber que o ontem passou e, de sentir aquele gosto agridoce da nostalgia invadir seus dias sem ao menos pedir licença. Era bom lembrar-se do passado, mas como doía essa tal de saudades! Nós, seres humanos, nos machucamos facilmente e somos totalmente frágeis quando o assunto diz respeito a sentimentos, e se há algo que, por mais que desejemos colecionar, preferimos que continue a existir são os momentos. Clarice se apegava a cada instante, assim como também o faço, e creio que também o façam o João, a Maria e você, meu caro leitor. Se não fossemos todos volúveis aos momentos não haveria a palavra nostalgia para descrever o que sentimos ao colecionar saudades.
Todavia, não há de se pensar que, porque todos sentem a tal da saudade, devemos alimentá-la hoje sem pensar que existe um amanhã a nos esperar. Foi exatamente o que Clarice fez, lembrou-se de certa vez que leu em um livro de citações uma frase que dizia “Amanhã será o primeiro dia do resto da minha vida” ³, então rabiscou aquele amanhã mentalmente de tal frase, substituindo pelo hoje. Não iria esperar até amanhã, assistindo a felicidade passar pela janela de suas lembranças.
Clarice fechou a janela e guardou seus sentimentos junto às suas memórias, deixando de fora apenas saudades, para vez ou outra trocar figurinhas de sua coleção com um amigo. Pois há como engolir gritos, mas não palavras e, contar momentos é de fato algo do qual nos orgulhamos. Contar que um dia qualquer meu amor sumiu de meu campo de visão e, não ouvi a campainha tocar, que vou me conformar, pois afinal não acredito mesmo em histórias de amor, mas nem por isso deixo de sentir saudades.

¹”Falai Baixo, se falais de amor” – Shakespeare
²”Passamos uma época da vida colecionando emoções, e outra, colecionando saudades” – Paulo Bonfim
³ “Amanhã será o primeiro dia do resto da minha vida” - Anônimo