sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Como eu queria me tornar estúpida




Há dias tenho lembrado de Antonie e de seu desataque de prudência tentando fugir da racionalidade.
A verdade é que se Antonie não fosse um mero personagem satírico, eu pegaria sua história como exemplo e entraria para um clube suicida.
É exaustivo todo este exercício reflexivo e, quanto mais eu penso, mais me convenço de que seria muitíssimo satisfatório abandonar este hábito patológico.
Tantos pensamentos prolixos que, de certa forma se completam, mas nunca se concluem acabam me prendendo num círculo vicioso, do qual anseio por sair, mas infelizmente, não há escape para uma mente viciada em monólogos.
E, assim como Antonie, eu gostaria de uma pílula que me fizesse parar de questionar e simplesmente aceitar. Queria tornar-me estúpida, porque a estupidez é a porta de saída para a indignação e, quem sabe assim eu me tornaria uma acomodada, ignorantemente feliz.
Eu gostaria de ser um liquido adaptável a qualquer recipiente, no entanto sou vapor difuso e confuso e me perco com tantas moléculas se agitando em mim.
Penso que talvez a ignorância seja uma dádiva divina concedida àqueles que podem ser plenamente felizes e livres de preocupações, entretanto julgo ilógico conceder um privilégio a um número tão grande de pessoas.
Por outro lado pensar, incontestavelmente não é algo favorável ao bem estar e, por vezes eu quero parar, dosar minha racionalidade com um pouco de alucinação, desajustar-me.

domingo, 23 de setembro de 2012

Náuseas


Dizem que quando o sentimento está à flor da pele é difícil sufocá-lo.
Dizem que o ser humano se acostuma a esse estado doentio.
Julgo facinoroso aquele que se adapta a esta torpitude.
Parece um crime impetuoso consigo mesmo sustentar angústias.
Não sei de onde vem este frio, mas o dia está cinza lá fora, e ironicamente entupiu minhas veias de sangue preto e branco, que corre inexpressivo, e que perpassa minha consciência, transformando tudo em fumaça densa.
É que o dia acordou com essa essência atroz e infelizmente, eu acredito em somatização.
Dizem que a psique humana tem uma ligação profunda com nossas sensações físicas.
Deve ser por isso que por meus lábios entreabertos, eu tento expelir meus pensamentos esfumaçados.

terça-feira, 12 de junho de 2012

É que... não aceitamos sangue homossexual aqui!


Frequentemente ligamos a televisão e assistimos alguma propaganda incentivando pessoas a doar sangue, um ato muito bonito, pois afinal, quantas pessoas estão precisando de um pouco de vida, quantas pessoas dariam qualquer coisa para conseguir sangue e, neste momento, talvez elas abandonassem seus preconceitos e aceitassem qualquer sangue que fosse compatível com o seu.

Sempre achei que doar sangue a uma pessoa que precisa dele para viver, é um ato digno e, vivo me questionando porque é um ato tão escasso. Pois podemos começar pelo fato de que homossexuais, que convenhamos, é uma parte muito grande da população, não podem doar sangue, isto é, se você teve relação sexual com alguém do mesmo sexo nos últimos  12 meses e alguém precisar do seu sangue para viver, ou você pode mentir e entrar no armário para salvar uma vida, ou a pessoa pode morrer tranquila, sem um sangue contaminado com homossexualidade. Lógico que este não é o único motivo, a burocracia é enorme, mas é revoltante o quão explicito está o preconceito, e o quanto as pessoas mantem seus olhos fechados quanto a isso.

Agora vamos aos fatos, querido Ministério da Saúde. Uma instituição que tem como objetivo ajudar pessoas, deveria ser instruída o suficiente para saber que nos dias atuais, o maior grupo de risco de HIV, são jovens entre 15 e 24 anos HETEROSSEXUAIS, já passamos dos anos 80, quando a informação era mínima.

Entretanto, desde 1993, o Ministério da Saúde determinou, pela Portaria 1.366/93, que os bancos de sangue de todo o país rejeitem doadores que se declarem homossexuais e tiveram vida sexual ativa no último ano. O problema vem desde a discriminação, até a invasão de privacidade e sabe porque? Por que seria um gasto excessivo fazer exame de sangue em todos que querem ajudar, é muito mais fácil partir pelo preceito da generalização e barrar todos aqueles que podem apresentar algum risco e, é claro que os heterossexuais com vida ativa se excluem destes grupos marginalizados. Portanto, na próxima campanha de doação de sangue, o Ministério da Saúde deve explicitar "Não aceitamos sangues contaminados com seu desvio de sexualidade!".

domingo, 3 de junho de 2012

Que loucura!


Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que somos uma raça hipócrita.
Diria que somos uma raça desatinada.
E, logo depois, diria que não somos uma raça, mas uma espécie, uma espécie cheia de manias incontroláveis e insuportáveis, uma espécie difícil de lidar e totalmente auto-destrutiva e que, talvez eu seja uma misantrópica.
Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que o sentimento mais puro é essa tristeza que não possui motivos explícitos para existir.
Diria que essa espécie de melancolia é viciante.
E, logo depois me perderia em meus pensamentos distantes, que  me dispersam do mundo, que me jogam num estado de isolamento.
Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que quando me sinto enlaçada por estes momentos, o abraço do nada me torna vazia.
Diria que estou sozinha nesta sala escura.
E logo depois, apagaria a luz, para que minhas palavras se tornassem reais, para que o ambiente pudesse ser condizente com meu texto.
A questão é que eu tenho, infelizmente eu tenho que descrever em palavras.
Se eu não tivesse que descrever em palavras, deitaria em minha eterna inércia e desfrutaria deste momento de desalento.
Não diria nada.
E, logo depois me deixaria envolver pelo ócio.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A última página



Fechou a última página de seu livro e sentiu como se arrancasse uma parte de seu corpo.
Ela amava as palavras, amava o efeito eloquênte que elas causavam em seu íntimo.
Fechar a última parte era como desmoronar parte de seu mundo.
Era cruel a forma como ela se apaixonava lentamente por personagens, como as palavras a seduziam, a encantavam e, no final, fechava o livro e o guardava na estante, ao lado de outro que, provavelmente passara pelo mesmo processo.
Mas ao mesmo tempo que o final a destruía, a encantava, ele modificava parte de seu mundo.
Histórias contém mais, muito mais que palavras e personagens.
Elas contém uma forte personalidade que te constrói e desconstrói à medida que passam pelos olhos e penetram as ideias.
Por isso a sensação produzida é uma transição lenta entre o vazio e o êxtase.
O primeiro passo para construir algo, é possuir um espaço vazio.
E quando eu fecho o livro, sinto um vazio enorme, um vazio amedrontador, um vazio que me leva a uma série de questões. As questões a princípio estão embaralhadas, mas à medida que me lembro da Maria, do Antoine,  Ernest e Gertrude, as ideias vão surgindo como um feixe de luz, e fica fácil organizá-las, discuti-las, modificar-me.

Ela fechou o livro e, com certa tristeza, sentiu-se mais sábia. Despediu-se daquela personagem à qual se apegara de forma tão intensa e a agradeceu por ajudar a construí-la, colocou o livro na estante e esperou que, durante a noite os personagens acordassem e conversassem entre sí, como num curta-metragem que vira em um dia qualquer de sua vida. Esperou que eles tornassem mais completos uns aos outros e, nunca morressem, ainda que ficassem ali, aparentemente estáticos sobre prateleiras.

domingo, 25 de março de 2012

Protege moi

Meus dedos oscilam, assim como meus pensamentos e todos meus sentimentos.
Há um casulo cheio de coisas abstratas.
Coisas que por vezes são sentimentos, por outras pensamentos, e por outras, apenas nomeio como líbido.
É que a música está muito alta, não... não digo o volume, digo a intensidade.
A intensidade aumentou consideravelmente minhas sensações e percepções.
O tempo é como uma nuvem, que dependendo do ângulo visto pode parecer tão distante... tão perto... com formas definidas... ou tão esfumaçadas.
As pessoas também são relativas ao ângulo, às situações e principalmente, às notas sonoras.
Se você acender um cigarro, encher um copo de whiskey, sentar no chão e sentir uma superfície gelada e inerte em contato com sua pele quente, escutando a música certa, vai entender que as pessoas são todas desatinadas.
Se você estiver em boa companhia, compartilhará um momento incomensurável, um tanto constrangedor, mas inexplicável em suas filosofias sensitivas.
Não é sinestesia, é fato que o ritmo da melodia faz fervilhar sensações viciantes, é impossível parar de ouvir o frio na barriga, de sentir a música, de falar sobre o que você vê quando fecha os olhos e, como é incrível continuar vendo tudo ao abri-los lentamente.
A realidade é relativa. Um pensamento não deixa de ser real, pois ele talvez seja mais parte de mim  que minha maçante rotina. A utopia é excruciante.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Mas o Carnaval...


Hoje o dia amanheceu assim, meio nublado,
mas dias cinzentos surtem influxos de ideias.
Não que eu não goste de dias ensolarados,
mas é que toda aquele dança das cores acaba por ofuscar meus pensamentos.
Hoje abri a janela e dancei em par com meu violão.

Desejei pular Carnaval com o Monobloco da praça,
mas logo ansiei pela companhia de Lispector em suas páginas empoeiradas.
É que não tenho esse espírito brasileiro de ser,
Mas hoje, eu precisava de um pouco de fulgor para curar meu ócio.

Eu precisava de ver a cor do samba pintando a cidade,
mas é que nunca cheguei a conhecer o Carnaval.
Eu nunca gostei de purpurina nem de muita gente,
mas hoje resolvi sair de casa e abandonar Clarice e seus entrechos.
E justo eu, que não conhecia o tom do sapateado, acompanhei a marchinha.
Mas hoje, hoje colori o dia sambando na praça.

Processo digestivo


Por vezes as palavras insistem em querer sair, mas eu sei o quanto são perigosas, o quanto podem contundir, então vou engolindo letra por letra, até formar versos em meu âmago.

A principio engulo as letras de uma vez, como se fossem comprimidos, porém empurro-as com um grande gole de cerveja. Elas descem como se fossem uma daquelas capsulas bem grandes de remédio, que se não descem em uma forte golada, acabam entalando na garganta.

Este é o primeiro efeito colateral do qual sofro deglutindo pílulas cheias de palavras que não posso dizer. Minha garganta começa a doer e, tentando conter a dor, meus olhos enchem de lágrimas, elas não saem porque não há necessidade, acho que só surgiram mesmo porque fiquei entalada. Sinto como se meu esôfago fosse um buraco que mantém uma ligação quase espiritual entre minha garganta e meu estômago, onde as letrinhas vão ainda inteiras dentro das capsulas. Quando elas caem em meu estômago ele começa a quebra das pílulas, e as letras são libertas. Elas não são formadas por proteínas, ou gordura, ou carboidratos,  elas são formadas por sentimentos, por isso não são quebradas dando sequência ao processo digestivo, elas param ali e ficam estagnadas, a espera das outras letras e, na medida em que elas vão chegando são compostos textos.

É engraçado o processo ao qual se submetem as letras quando estão formando textos, parece que elas não tem consciência de que estão em meu estômago e ficam se movimentando como borboletas, voando e exalando uma beleza surreal. Às vezes as palavras tem uma temperatura divertida que me dão um frio na barriga, um frio que, em determinados momentos me engole por inteira e me faz arrepiar de uma forma desesperadora. Este é o segundo efeito colateral de digerir letras.

Logo após toda esta movimentação que acontece em meu íntimo, enfim são formadas frases. É quando surge o terceiro e mais perigoso efeito colateral, eu penso, repenso, reflito e tento decodificar cada palavra que forma textos dentro de mim. Nesta parte as pessoas tornam-se vulneráveis à loucura, qualquer pessoa que se submete a determinado tratamento sabe que corre riscos, que podem ser muito perigosos, podem ser passageiros ou permanentes, e podem levá-las a medidas drásticas.

Por vezes, não suporto este terceiro efeito de meu rigoroso tratamento e tento vomitar as palavras, porém como elas são apenas essência, é muito difícil repeli-las para longe de mim. Quando falho tentando expelir tudo aquilo de meu organismo, torno-me fraca e caio num ciclo vicioso.

No esforço de livrar-me da dor, muitas vezes tento a overdose das pílulas que guardam letras. Entretanto sou mesmo uma fracassada no quesito suicídio, sempre fico muito dopada, exalando letras pelos poros, corroendo-me por dentro no constante movimento que ocorre na construção de palavras.

Quem sabe um dia eu consiga transportá-las para minhas cordas vocais e transformá-las em ondas sonoras, quem sabe um dia... 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Falta enredo


Eu queria escrever uma história que descrevesse o que sinto, queria que a inspiração estivesse presente, já que minha história deveria tocar seus leitores. É que o que tenho sentido ultimamente pede por palavras que relatem a risco meus dias e distintamente cada pensamento que perdure ainda que um segundo em minha mente. Não que sejam pensamentos significativos, mas renderiam de fato um bom entrecho, alguns são cheios de poesia, filosofia e outros, outros são apenas pensamentos cheios de drama, coisas de jovens lunáticos.

Eu queria mesmo escrever... cheguei a pegar uma caneta e meu pequeno caderninho de capa preta, que há anos vem acompanhando minhas súbitas vontades de escrever e descrever o que se passa em minha perturbada imaginação. Entretanto como que para contrariar-me, as palavras estavam zombando de mim, e por mais que eu tentasse elas se escondiam em meu subconsciente e não me permitiam alcançá-las e puxá-las para o papel, parecia que elas estavam extremamente felizes mantendo uma existência substancial.

Comecei então a tentar transformar meus dias em contos, mas não sabia exatamente qual dia deveria escolher, estava a procura de um dia no qual os questionamentos e os pensamentos incessantes fossem protagonistas. Eu realmente acreditava que se minha história contasse a respeito destes dias, as palavras se sentiriam traídas em serem coadjuvantes e resolveriam aparecer para mostrar que foram de grande valia em tais momentos.

Foram vãs tentativas, todas elas. Não é que eu queria escrever uma história atoa, é que quando uma angustia começa a se encorporar em meus dias, a única forma de fazê-la mais suave e menos resistente, era despindo-a e transformando-a em poesia, em enredo, em romance. E por mais que eu tentasse, o emaranhado de ideias que eu tinha estava se evaporando, tornando-se difuso e confuso e nem eu mesma conseguia distinguir meus pensamentos para decidir sobre qual escrever. As palavras haviam sumido e com elas todas as minhas concepções.

Foi quando percebi que a melhor forma de encontrar versos e formar contos, era discorrer sobre a fuga de minha inspiração. Já que ela não estava presente, eu falaria sobre a falta que sinto de ter um influxo de ideias e da capacidade que outrora eu tive de transformá-lo num trecho qualquer.