terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Momentos de lucidez

As letras dançavam diante dos olhos de Catarina, era como se fizessem um espetáculo e mostrassem que não eram belas apenas formando palavras.
E diante daquela dança alfabética ela se perdia e perdia o texto, perdia o sentido das palavras e o local por onde seus pensamentos viajavam.
E de súbito não era mais a história que lia, mas sim a que pensava e sonhava, transportando-a a um ponto qualquer do mapa de suas idéias.
Um lugar específico que guardava sua atenção e não admitia dividí-la com uma historiazinha qualquer.
Até que a menina se lembrava que não era momento para criar e tampouco era ela uma criadora, apesar da imensa vontade de sê-lo.
Catarina era apenas uma descobridora de palavras e contos, poemas e letras. Porém descobridores tem de ser lúcidos e possuir provas imutáveis de suas descobertas. Mas as letras dançavam e dançavam, tornando a menina apenas uma espectadora e tirando de cena o mérito de criadora ou descobridora, pois estes eram fortes e seguros demais e Catarina... apenas possuía a força de seus pensamentos longínquos e um livro com letras dançantes.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

E que pupilas!

Lá estava ela, no auge de sua meninice acariciando seu pequeno animal, sempre achara todos os animais incrivelmente amigáveis, mas aquele à sua frente representava a perfeição, com seus olhos arregalados e esverdeados e as pupilas... e que pupilas! Tais estas que eram-lhe características, lá estava sua gata, em sua total integridade, emanando uma elegância que só cabia a ela.
A menina frágil, com uma beleza totalmente simplória se comparada à daquele animal, tão indefesa. E a gata sempre preguiçosa, exuberante, deitada em sua profunda inércia, ignorando a pequena mão branca de unhas cor-de-rosa a acariciar-lhe.
Ela, a menina, sempre invejou a maneira como apesar de possuí-la, a gata era livre, bastava saltar a janela e equilibrar-se sob quatro patas no telhado e lá estava ela, passeando na vastidão da noite, e voltando a quaisquer hora para ser recebida pelos braços acolhedores da menina.
A menina não, sempre regrada, dependente, sonhando eternamente com a liberdade que não lhe pertencia, sonhando com a posse daquele animal, ou até mesmo o amor daquele pequeno ser livre.
Não sabia muitas coisas a respeito dos animais, sabia apenas que cães demonstravam amor pela maneira como seus rabos abanam ou quando lambem seus donos, mas a gata... a gata não era assim, ela era uma gata, e a menina uma menina.
Seres distintos, que naquele dado momento se olhavam, a gata serena, a reparar os olhos cor de mel da menina, realçando sua pele de porcelana cujos cabelos de um preto intenso destacavam caindo sobre as maçãs do rosto sempre róseas, e a menina, a admirar os olhos característicos da gata e o pelo macio soltando-se, ela sabia, eram as duas, a menina e a gata.
E anos depois, a menina era uma mulher, cujas antigas unhas cor-de-rosa estavam agora pintadas de um vermelho vivo, assim como os saltos do sapato e a cor do batom, a mulher vestia um lindo vestido preto de seda e carregava sua bolsa de pelica.
E hoje com seu ar de mulher, ela era livre, independente de pular janelas, e hoje exalando aquele perfume de mulher elegante e vivida ela sabia que quando gatas olhassem nos seus olhos, demonstrariam amor, e que a menina havia sido amada... a menina que hoje era uma mulher, pela gata, que ainda era uma gata, livre a pular janelas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Way Out

O difícil mesmo é escrever em terceira pessoa, utilizando um sujeito diferente do Eu, fujindo dessa idéia narcisa de que o Eu é o centro do mundo e automaticamente tem de se tornar o centro da escrita e da arte.
Há quem diga que não consegue escrever fugindo do eu, o que torna difícil a dissertação e os textos mais práticos que lemos nos jornais, o que torna difícil a literatura e até mesmo uma simples revista contendo futilidades adolescentes.
A grande verdade é que com o tempo, tudo se tornou eu, até mesmo os grandes e consagrados autores precisam se tornar um pseudônimo ao escrever a respeito de um personagem quaisquer, pelo simples gosto de utilizar a primeira pessoa.
A primeira pessoa não deixa de ser arte por isso, e não se torna menos valiosa, mas não há quem negue, que é admirável quem consiga escrever em uma completa terceira pessoa, fujindo de seu próprio ego, e das raízes do individualismo contido no eu.
Ao dizer eu, nos fechamos em um mundo particular, onde podemos ser apenas eu, quando faço relação a algo externo de mim mesmo, posso ser ela ou ele, posso ser Ana, Maria, Lucas ou João e ainda posso não ser ninguém e escrever algo coeso e belo.
Admirável mesmo, é a fuga do próprio mundo, é sair de um estado de super-ego e não apenas adotar outro nome, mas encarnar outro nome, encarnar uma vida exterior à introspectiva imediata que sofremos ao ver a folha e o papel na mão.

domingo, 29 de agosto de 2010

There She Goes Again

O relógio batia por volta de oito horas da noite, o céu escurecia se tornando levemente roxo, enquando aqueles coturnos de cadarços brancos davam passos monótonos e exaustos, Catherine encarava aquele como um dia qualquer, e levava consigo apenas seu traje habitual, a calça jeans desgastada, sua jaqueta jeans e sua mochila velha.
Aos poucos seus passos se tornavam mecânicos, até que avistou o portão de grades pretas, colocando a mochila sob um de seus ombros, abriu o bolso externo e tirou um bolo de chaves, abriu o portão e começou a subir as escadas, enquanto sua respiração se tornava cada vez mais ofegante, chegando ao último andar, abriu a porta de número 601 e entrou.
Encaminhou-se até o bar no canto da sala, e examinando cuidadosamente todas as garrafas escolheu aquela cujo rótulo dizia "Johnnie Walker Blue Label King George V Edition", abriu a garrafa colocando parte do liquído em seu copo baixo.
Encaminhando-se à cobertura, sentou-se em sua poltrona de couro preto na sala de estar que ficava em frente à piscina, e começou a observar as estrelas.
Tudo em sua vida estava tão monótono, que apenas o Johnnie Walker poderia quebrar os dias eternamente cansativos.
Catherine de alguma forma imaginava que nada nunca daria certo para sí, não havia porque sustentar-se em cima de longos e árduos dias, não havia um porque para nada, a dor de cabeça tornava-se ainda mais assídua sob o efeito do whiskey, mas nada a fazia sentir-se melhor, nem mesmo a presença de alguém que amasse.
Catherine sabia que de certa forma a vida estava se tornando chata, muitos diziam a ela que se acalmasse, afinal, a vida é composta de fases, e fases passam, mas tudo parecia diferente diante de seus olhos.
O álcool já não lhe causava a mesma euforia, e já não havia animo para longas noites junto a sua amada, no final das contas nada fazia muito sentido para sí.
Ela via a sí própria como alguém alheia, totalmente sem motivos, sem razões para continuar a caminhar, e então ela via seu grande amor junto a sí, e sentia-se chateada por achar tudo aquilo tão cansativo, até mesmo sua garota, em meio a tantos assuntos que não lhes dizia respeito.
Apenas queria explodir o mundo, e ver cada parte de seu corpo voando como confetes no carnaval, sabendo que o fim havia chegado depois de longos anos de espera.
Então percebendo o brilho de todas aquelas estrelas no céu, Catherine tirou sua jaqueta e seu jeans desgastado, tirou seu coturno e ficando apenas ela, despida pulou em sua piscina mergulhando tão profundo quanto seus pensamentos, enquanto o alcool fazia efeito, e sua respiração falhava.
Pensava consigo, não falharei agora, finalmente chegou o fim, então na vastidão de seu inconsciente, via uma garotinha correndo atrás da bola, enquanto sorria dentro de seu vestido branco cheio de rendas e sardinhas no rosto, e de repente, percebeu que não havia porque fugir de seus problemas.
Não havia agora um motivo pelo qual continuar nadando, e aos poucos o sopro de vida que havia em sí ia falhando, porém a idéia de que a morte poderia ser tão maçante quanto a vida lhe aterrorizava.
E chegando à beira da piscina olhou ao seu redor, lá estava seu companheiro, velho e bom Walker, pegando a garrafa, encheu novamente seu copo e deitou seu corpo nú sob o chão frio.
Olhando às estrelas percebeu que era apenas ela, sozinha, cheia de nada, cheia de sangue correndo em suas veias, percebendo que o que sentia, era o ódio repleto de amor, e o cansaço de estar sempre cansada.

Chan Chan

A fadiga roubou-me as palavras, as roupas e a folha escrita.
Aos poucos a fadiga tenta levar-me o amor, a amizade e o ânimo de voar.
A fadiga trouxe aos ponteiros do relógio o seu barulho característico e ansioso, trouxe aos dedos o estalo incessante e às pessoas a vida trepidante.
Foi-se a natureza do tempo, das flores e dos passos, hoje em dia é tudo técnica, tudo leva à praticidade do que cabe entre o tic e o tac do relógio e à controversa de raramente se ver um corpo em repouso permanecer em repouso.
E ainda em meio a tanta agitação, há a ausência de seres pensantes, racionais e conscientes, vemos seres eternamente alienados e estáticos, mutáveis por natureza e iguais por comodidade.
Ah, fadiga!

sábado, 22 de maio de 2010

God save the queen

Ontem descobri que em pleno século XX, onde milhares de pessoas tem acesso à internet, à cultura e ao conhecimento, existem pessoas que não sabem quem foi Hittler, o que foi o nazismo ou o que é a bolsa de valores.
Então me perguntei, até onde vai a falta de conhecimento deste mundo?
A grande questão está na simples leitura, em uma simples força de vontade, basta querer.
O que me deixa indignada mesmo, é a falta de cultura das pessoas, é a falta de leitura, a falta de conhecimento básico, a comodidade em aprender só o que é passado na escola.
Há um tempo assisti um vídeo sobre crianças israelenses e judias e o que realmente me deixou boquiaberta foi como crianças tão novas, com cerca de dez anos sabem tudo sobre a história de seu país e vivem lutando por uma sociedade que seja justa para eles, lógico que há um lado ruim, porque elas criam um certo preconceito umas com as outras pela eterna luta pela palestina, porém é impressionante ver o quanto são inteligentes.
Enquanto que, aqui no Brasil, eu vejo crianças de dez anos ouvindo funk e tudo o que sabem sobre história é que o Brasil foi "descoberto" por Pedro Alvares Cabral. E se posso ir mais além, nem precisamos falar só a respeito de crianças, mesmo adolescentes e adultos sabem muito pouco a respeito do mundo e da política.
E porque? Porque a coisa mais fácil para todos é dizer "eu odeio a política", quando na realidade poderiam amar a política e "odiar os políticos", ou até mesmo amá-los.
Mas pra que odiar os políticos se eles proporcionam bolsa família, cota em faculdades, vila viva, seguro desemprego dentre milhões de outras coisas para beneficiar a massa popular?
Acaba que no final das contas é mais fácil odiar só a política mesmo, afinal eles acomodaram as pessoas a terem de tudo na mão, e se satisfazerem com tão pouco, mantendo essa hierarquia social e fazendo jus ao capitalismo bruto, onde o "pobre cada vez fica mais pobre, e o rico cada vez fica mais rico"!

(Apenas um desabafo)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Idgie Threadgoode

"Mas, como eu sempre disse, ela adorava que as pessoas a achassem mesmo má... por dentro, era mais doce que marshmallow. "

Tomates Verdes Fritos - Fannie Flagg

sábado, 6 de março de 2010

Normal

Uma fúria desvairante tomava conta de sí, ela novamente se encontrava em meio a uma convulsão sem sentido, sentindo o estômago se contrair impetuosamente.
"Estou voltando ao normal"
Ela tremia e percebia a maneira como aquele jogo havia feito um efeito fervoroso em sí.
Normal!
Nunca soube o real significado de tal palavra!
Mas ainda sem sabê-lo, sempre julgou o normal como algo perverso, o normal jamais se enquadraria em algo bom.
O normal sempre foi apontado a ela como um ato de julgamento, desprovido de toda e qualquer justiça. Mas pela primeira vez, ela que sempre teve uma opinião formada a respeito da expressão de cada palavra, não sabia dizer o que era "normal" naquela situação.

Talvez o normal seja a palavra pelo qual ela sempre manteve uma aversão inveterada.
De fato, o normal é uma palavra que lhe leva ao ímpeto da fúria, sempre preferiu as coisas fugindo do ponto em comum, ser visto como um lunático sempre foi preferível à equalização.
E agora, oscilando descontroladamente, ela sintetizava a idéia de que o normal é mesmo desprezível.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

I die inside her

Nua... Despida...
Onde estás a precária armadura?
Olhos impenetrantes agora decifráveis...
Maquiagem mascarada toda tirada.
Cigarros jogados no chão, em grande quantidade eu diria...
Amigos jogados no bar.
Você, cada vez mais acabando conosco.
Agora me sinto despida, despida de tudo o que me compunha.
Estou nua em uma montanha russa... tudo gira, gira e gira.
Você está lá embaixo a me esperar, contemplando como eu fico bem penetrável e decifrável quando sou apenas eu, nua, incompleta, sem nada de mim, transbordando você.
Somos eu morta e a sua vida correndo em suas veias sujas.
Somos o seu drama. Talvez ainda exista outro eu escondido por trás de nós.
Apenas um pouco de mim, apenas um resto do que sobrou, para não nos deixar afundar em todo seu espírito de heroína.