quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Help I'm Alive


Saudade é aquilo que esmaga o coração e deixa ele pequenininho dentro de nós, tão pequenininho que fica desproporcional ao corpo e às vezes, quando o sentimento fica muito estável, parece que vamos cair.

É que quando a gente sente saudade toda música é motivo de lembrança, todo vídeo remete a alguém, toda frase tem um quê que fulano ia gostar, toda situação me faz pensar que alguém gostaria de presenciá-la e que seria tão mais aprazível com esse alguém.

Mas é assim mesmo, quando a saudade é grande a gente lembra com carinho, a gente fala sozinho e pensa mais do que deveria. A gente as vezes chora e as vezes sorri, mas a gente sempre fica assim, com esse coração tão pequeno e ao mesmo tempo tão grande, que sempre dá para caber mais saudade com a chegada de mais lembranças - e tudo é uma lembrança potencial.

Hoje escrevi uma dissertação sobre os protestos que aconteceram esse ano, e pensei no quanto você gostaria de estar aqui para ver esse povo sair por aí gritando e lutando pelos seus direitos. Esse livro que li ontem, tinha aquela frase sua e agora mesmo vi uma foto e pensei como você adoraria vê-la. Essa música, que você nunca ouviu, ela me toca, por isso é uma lembrança de você. Meu gatinho que você nunca viu, pensei que gostaria de conhecê-lo, ainda que você não seja muito chegada a animais. 

É que as vezes eu acho que essa mania de achar que você deveria estar aqui para ver tudo é motivo para lembrar mais de você, para sustentar essa nostalgia eterna dentro de mim.

Mas quando a gente sente saudade, é assim mesmo....

domingo, 30 de junho de 2013

Cast your mind back to the days...


As vezes tudo parece mentira.
A vida retrocede e eu escuto aquela velha canção "Um dia gatinha manhosa eu prendo você, no meu coração..."
Quando eu era apenas uma menina pueril nada disso fazia muito sentido, na verdade quando somos apenas crianças, as letras em geral não precisam de uma razão pra existir, são todas letras que nos fazem felizes, de canções que nos fazem dançar e cantigas que nos fazem brincar.
Aquela garotinah de cinco anos, não sabia que quando crescesse nenhuma criatura no mundo beijaria seus pés com carinho novamente, tampouco sabia ela, que isso não era assim muito normal.
Ela não sabia que sentir saudades de casa não era sentir falta do seu cobertor, que gatos unham de brincadeira e cachorros mordem pra afiar os dentes também.
E é triste, é triste quando a gente percebe que as canções são feitas de letras, e em geral elas tem que fazer sentido, senão nós não gostamos delas.
Um dia a garotinha acordou e de repente, contaram-lhe que gatinhos não são tão carinhosos quanto cachorros e, apesar de tudo isso parecer a ela uma grande mentira, ela entendeu o porque da metáfora "Um dia gatinha manhosa eu prendo você, no meu coração".
Descobrir isso foi decifrar a canção, mas não, não foi um momento brilhante, porque a canção não era como antes, ouvida enquanto caminhava entre as núvens e conversava sozinha fingindo cantar belas canções. A canção não a fazia pensar que um dia poderia voar ou que seu vestido lilás rodado era o mais bonito do mundo e fazia com que ela fosse uma princesa.
É que princesas não existem e principes podem parecer entediantes.
É que dói quando cai a ficha e eu odeio esses flashbacks, mas ao mesmo tempo sou viciada em todos eles, porque todos são tão lindos que é hipocrisia apagá-los pelo simples fato de me causarem um estranho aperto.
Apesar de tudo isso, estou sentada com dois gatos ao meu redor, aqueles mesmos gatos que o mundo julga serem animaizinhos arrogantes, estou aqui ouvindo canções que sempre me tocaram, as mesmas de sempre. Por alguns momentos eu ouço aquelas conversas lá embaixo, aquelas que não existem mais e, em seguida percebo que eram apenas lembranças, afinal tudo aquilo já passou e agora eu entendo, que consegui prender o que pude.
Agora eu entendo que a gatinha manhosa é tudo aquilo difícil de prender, de conservar, mas que o prazer de prender o impossível é impagável. Porque eu não me apossei de nenhum momento, de nenhuma feição e de nenhum sorriso, eles simplesmente visitam minha mente em determinado momento e se fazem presentes, ainda que disfarçados de realidade.

terça-feira, 19 de março de 2013

Querida Jude


Você sabe, não tenho tido muito tempo para escrever-lhe ultimamente. Por isso desculpe minha negligência de enviar esta carta redigida em uma página de minha agenda, mas repare que, por outro lado, a data foi cuidadosamente escolhida. Não Jude, eu não poderia ter escrito em uma folha completamente aleatória a alguém que sempre conservou uma memória impecável com os números.

Jude, olhe os números ali em cima no canto direito, agora corra os olhos para o dia da semana e, repare que você escapou de uma segunda-feira. Pela primeira vez, você escapou de ocupar essa página. Repare que, escolhi escrever nesta página por significar muito para mim, mas que, nem tudo que anseio por contar-lhe, diz respeito a este dia, tampouco a nós duas.

Olha Jude, primeiro gostaria de dizer que resolvi escrever porque hoje o céu amanheceu nublado e, uma das primeiras coisas que fiz no meu dia, foi ir até o quintal e notar a falta das pinhas e das jabuticabas. Também me lembrei daquele dia Jude, que você me chamou na janela e eu fui com todo meu rancor, porque você sabe, as vezes eu ficava extremamente irritada ao ser interrompida, mas quando cheguei na janela, você me mostrou a corujinha no pé de caqui e meu dia se tornou um pouco aprazível.

Sabe Jude, eu adoro dias frios e, acho engraçado quando eu coloco meu casaco e continuo sentindo um friozinho gostoso percorrer-me, até que ele chega na barriga e, me força a colocar alguma coisa pra fora. 

Hoje Jude, o dia está assim.
Hoje Jude, eu gostaria de compartilhar como estou me sentindo.

A minha vida tem corrido muito bem e, eu estou crescendo. Digo, continuo com meu meio metro de altura, mas sabe Jude, crescer é mais que estatura. Estou percebendo que as coisas começaram a se encaixar. É como num jogo de lego, você sabe que sua construção está crescendo quando as peças começam a se encontrar e tomar forma. Antes disso, são apenas quadradinhos com pinos que você imagina que devem caber em algum lugar, as vezes você até supõe que seria aqui ou ali, mas só acredita quando vê que está começando a construir algo.

Ultimamente a vida tem tomado alguma forma e, eu gostaria que você pudesse ver o sorriso que tem tomado conta de minhas feições nos últimos dias. Bom Jude, eu não posso mostrar-lhe como estou feliz pessoalmente, já que você está inacessível, mas como sempre tivemos essa empatia, espero que você sinta através das minhas palavras.

Para descrever melhor, estou enviando para você este algodão doce, mas leia com atenção minhas instruções para conseguir entender o que estou sentindo agora. Primeiro, ignore o excesso de açúcar, eu sei que as vezes o que é muito doce pode incomodar, mas se a sensação valer a pena, é permitido ser um pouco meladinho. 

Agora Jude, pegue um pedacinho pequeno deste algodão e coloque na sua boca, você vai sentir ele se desfazendo aos pouquinhos, vai fazer um pouco de cócegas no céu da boca e depois você vai se perguntar "De onde vem essa sensação engraçada?". Quando você chegar nessa pergunta, coloque este disco (que também estou mandando) para tocar. Todas estas músicas foram feitas exatamente para despertar algum sentimento e, quando você escutar este CD, escreva uma carta em resposta à minha, me contando a respeito de suas experiências sensitivas.

Hey Jude, 
não me esqueça, um abraço bem grande pra você! 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Disfunções comportamentais


Eu tentei escrever uma história, mas ultimamente as palavras surgem apenas quando vivencio momentos.
Eu estava na estrada, tinha tanto verde e aquele céu infinito, a música me penetrava (fato rotineiro) e eu tentava me concentrar no livro que tinha em mãos. 

Meus olhos percorriam as letras, mas outras palavras preenchiam minha mente, elas vinham de um lugar que eu desconheço... essas coisas de momento! Lamento muito não ter tido uma caneta em mãos naquele instante, porque tenho certeza que escreveria uma bela história! Talvez não fosse algo esteticamente trabalhado e nem bonito aos seus olhos, ou aos olhos de qualquer outro leitor, mas seria uma bela história, porque me lembraria aquele momento, que de certa forma me destruiu de forma reconfortante.

É que tenho que dizer, está tudo acontecendo no tempo errado, a inspiração vem quando falta papel e caneta; as lágrimas vem quando falta um recipiente vazio para soltá-las e vou dizer, se você encontrar um recipiente vazio no momento certo, agarre-o, porque segurar lágrimas por muito tempo faz com que um nó indilacerável forme-se na garganta.

Tenho pensado sobre os fatos corriqueiros que transitam meus dias, como por exemplo as ultimas vezes que estive só e pude escrever. Discorri sobre coisas simples, tudo em formato de cartas, que nunca chegarão ao seu destino final. Nada que você pudesse ler e me admirar, nada que te fizesse pensar que nasci com o dom da escrita, mas ainda hoje, quando pego meu velho caderninho preto para reler minhas cartas, não consigo passar da primeira linha, não por ser ruim, mas por ser algo pertencente a um momento íntimo, meus olhos sempre se embaçam, se enchendo de lembranças.¹

Acho que desde aquela ultima escrita, recheada de amor, dor, carinho, melancolia e tantos sentimentos que não consigo sequer citar (tampouco passar da primeira linha), acho que gastei tudo naquela página, portanto, peço para que não repare caro leitor, neste texto mediano, pois foi uma pequena tentativa de voltar a escrever, de voltar a sentir, de afrouxar o nó formado por lágrimas aqui na minha garganta, porque sejamos francos, seria perigoso eu me sufocar a qualquer momento!

¹"Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo" - Adriana Falcão

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Como eu queria me tornar estúpida




Há dias tenho lembrado de Antonie e de seu desataque de prudência tentando fugir da racionalidade.
A verdade é que se Antonie não fosse um mero personagem satírico, eu pegaria sua história como exemplo e entraria para um clube suicida.
É exaustivo todo este exercício reflexivo e, quanto mais eu penso, mais me convenço de que seria muitíssimo satisfatório abandonar este hábito patológico.
Tantos pensamentos prolixos que, de certa forma se completam, mas nunca se concluem acabam me prendendo num círculo vicioso, do qual anseio por sair, mas infelizmente, não há escape para uma mente viciada em monólogos.
E, assim como Antonie, eu gostaria de uma pílula que me fizesse parar de questionar e simplesmente aceitar. Queria tornar-me estúpida, porque a estupidez é a porta de saída para a indignação e, quem sabe assim eu me tornaria uma acomodada, ignorantemente feliz.
Eu gostaria de ser um liquido adaptável a qualquer recipiente, no entanto sou vapor difuso e confuso e me perco com tantas moléculas se agitando em mim.
Penso que talvez a ignorância seja uma dádiva divina concedida àqueles que podem ser plenamente felizes e livres de preocupações, entretanto julgo ilógico conceder um privilégio a um número tão grande de pessoas.
Por outro lado pensar, incontestavelmente não é algo favorável ao bem estar e, por vezes eu quero parar, dosar minha racionalidade com um pouco de alucinação, desajustar-me.

domingo, 23 de setembro de 2012

Náuseas


Dizem que quando o sentimento está à flor da pele é difícil sufocá-lo.
Dizem que o ser humano se acostuma a esse estado doentio.
Julgo facinoroso aquele que se adapta a esta torpitude.
Parece um crime impetuoso consigo mesmo sustentar angústias.
Não sei de onde vem este frio, mas o dia está cinza lá fora, e ironicamente entupiu minhas veias de sangue preto e branco, que corre inexpressivo, e que perpassa minha consciência, transformando tudo em fumaça densa.
É que o dia acordou com essa essência atroz e infelizmente, eu acredito em somatização.
Dizem que a psique humana tem uma ligação profunda com nossas sensações físicas.
Deve ser por isso que por meus lábios entreabertos, eu tento expelir meus pensamentos esfumaçados.

terça-feira, 12 de junho de 2012

É que... não aceitamos sangue homossexual aqui!


Frequentemente ligamos a televisão e assistimos alguma propaganda incentivando pessoas a doar sangue, um ato muito bonito, pois afinal, quantas pessoas estão precisando de um pouco de vida, quantas pessoas dariam qualquer coisa para conseguir sangue e, neste momento, talvez elas abandonassem seus preconceitos e aceitassem qualquer sangue que fosse compatível com o seu.

Sempre achei que doar sangue a uma pessoa que precisa dele para viver, é um ato digno e, vivo me questionando porque é um ato tão escasso. Pois podemos começar pelo fato de que homossexuais, que convenhamos, é uma parte muito grande da população, não podem doar sangue, isto é, se você teve relação sexual com alguém do mesmo sexo nos últimos  12 meses e alguém precisar do seu sangue para viver, ou você pode mentir e entrar no armário para salvar uma vida, ou a pessoa pode morrer tranquila, sem um sangue contaminado com homossexualidade. Lógico que este não é o único motivo, a burocracia é enorme, mas é revoltante o quão explicito está o preconceito, e o quanto as pessoas mantem seus olhos fechados quanto a isso.

Agora vamos aos fatos, querido Ministério da Saúde. Uma instituição que tem como objetivo ajudar pessoas, deveria ser instruída o suficiente para saber que nos dias atuais, o maior grupo de risco de HIV, são jovens entre 15 e 24 anos HETEROSSEXUAIS, já passamos dos anos 80, quando a informação era mínima.

Entretanto, desde 1993, o Ministério da Saúde determinou, pela Portaria 1.366/93, que os bancos de sangue de todo o país rejeitem doadores que se declarem homossexuais e tiveram vida sexual ativa no último ano. O problema vem desde a discriminação, até a invasão de privacidade e sabe porque? Por que seria um gasto excessivo fazer exame de sangue em todos que querem ajudar, é muito mais fácil partir pelo preceito da generalização e barrar todos aqueles que podem apresentar algum risco e, é claro que os heterossexuais com vida ativa se excluem destes grupos marginalizados. Portanto, na próxima campanha de doação de sangue, o Ministério da Saúde deve explicitar "Não aceitamos sangues contaminados com seu desvio de sexualidade!".

domingo, 3 de junho de 2012

Que loucura!


Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que somos uma raça hipócrita.
Diria que somos uma raça desatinada.
E, logo depois, diria que não somos uma raça, mas uma espécie, uma espécie cheia de manias incontroláveis e insuportáveis, uma espécie difícil de lidar e totalmente auto-destrutiva e que, talvez eu seja uma misantrópica.
Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que o sentimento mais puro é essa tristeza que não possui motivos explícitos para existir.
Diria que essa espécie de melancolia é viciante.
E, logo depois me perderia em meus pensamentos distantes, que  me dispersam do mundo, que me jogam num estado de isolamento.
Se eu tivesse que descrever em palavras, diria que quando me sinto enlaçada por estes momentos, o abraço do nada me torna vazia.
Diria que estou sozinha nesta sala escura.
E logo depois, apagaria a luz, para que minhas palavras se tornassem reais, para que o ambiente pudesse ser condizente com meu texto.
A questão é que eu tenho, infelizmente eu tenho que descrever em palavras.
Se eu não tivesse que descrever em palavras, deitaria em minha eterna inércia e desfrutaria deste momento de desalento.
Não diria nada.
E, logo depois me deixaria envolver pelo ócio.