quinta-feira, 9 de setembro de 2010

E que pupilas!

Lá estava ela, no auge de sua meninice acariciando seu pequeno animal, sempre achara todos os animais incrivelmente amigáveis, mas aquele à sua frente representava a perfeição, com seus olhos arregalados e esverdeados e as pupilas... e que pupilas! Tais estas que eram-lhe características, lá estava sua gata, em sua total integridade, emanando uma elegância que só cabia a ela.
A menina frágil, com uma beleza totalmente simplória se comparada à daquele animal, tão indefesa. E a gata sempre preguiçosa, exuberante, deitada em sua profunda inércia, ignorando a pequena mão branca de unhas cor-de-rosa a acariciar-lhe.
Ela, a menina, sempre invejou a maneira como apesar de possuí-la, a gata era livre, bastava saltar a janela e equilibrar-se sob quatro patas no telhado e lá estava ela, passeando na vastidão da noite, e voltando a quaisquer hora para ser recebida pelos braços acolhedores da menina.
A menina não, sempre regrada, dependente, sonhando eternamente com a liberdade que não lhe pertencia, sonhando com a posse daquele animal, ou até mesmo o amor daquele pequeno ser livre.
Não sabia muitas coisas a respeito dos animais, sabia apenas que cães demonstravam amor pela maneira como seus rabos abanam ou quando lambem seus donos, mas a gata... a gata não era assim, ela era uma gata, e a menina uma menina.
Seres distintos, que naquele dado momento se olhavam, a gata serena, a reparar os olhos cor de mel da menina, realçando sua pele de porcelana cujos cabelos de um preto intenso destacavam caindo sobre as maçãs do rosto sempre róseas, e a menina, a admirar os olhos característicos da gata e o pelo macio soltando-se, ela sabia, eram as duas, a menina e a gata.
E anos depois, a menina era uma mulher, cujas antigas unhas cor-de-rosa estavam agora pintadas de um vermelho vivo, assim como os saltos do sapato e a cor do batom, a mulher vestia um lindo vestido preto de seda e carregava sua bolsa de pelica.
E hoje com seu ar de mulher, ela era livre, independente de pular janelas, e hoje exalando aquele perfume de mulher elegante e vivida ela sabia que quando gatas olhassem nos seus olhos, demonstrariam amor, e que a menina havia sido amada... a menina que hoje era uma mulher, pela gata, que ainda era uma gata, livre a pular janelas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Way Out

O difícil mesmo é escrever em terceira pessoa, utilizando um sujeito diferente do Eu, fujindo dessa idéia narcisa de que o Eu é o centro do mundo e automaticamente tem de se tornar o centro da escrita e da arte.
Há quem diga que não consegue escrever fugindo do eu, o que torna difícil a dissertação e os textos mais práticos que lemos nos jornais, o que torna difícil a literatura e até mesmo uma simples revista contendo futilidades adolescentes.
A grande verdade é que com o tempo, tudo se tornou eu, até mesmo os grandes e consagrados autores precisam se tornar um pseudônimo ao escrever a respeito de um personagem quaisquer, pelo simples gosto de utilizar a primeira pessoa.
A primeira pessoa não deixa de ser arte por isso, e não se torna menos valiosa, mas não há quem negue, que é admirável quem consiga escrever em uma completa terceira pessoa, fujindo de seu próprio ego, e das raízes do individualismo contido no eu.
Ao dizer eu, nos fechamos em um mundo particular, onde podemos ser apenas eu, quando faço relação a algo externo de mim mesmo, posso ser ela ou ele, posso ser Ana, Maria, Lucas ou João e ainda posso não ser ninguém e escrever algo coeso e belo.
Admirável mesmo, é a fuga do próprio mundo, é sair de um estado de super-ego e não apenas adotar outro nome, mas encarnar outro nome, encarnar uma vida exterior à introspectiva imediata que sofremos ao ver a folha e o papel na mão.