quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nada Semântico


A verdade é que já não há nada muito verídico nessa minha vida vil.
Tenho andado um tanto mendicante... às vezes falta-me dinheiro, amor, paixão, fulgor e quase sempre, quase sempre falta-me alegria. É que eu tendo enganar a mim mesma fingindo rir do emaranhado de desgraças que afligem meus dias.

Hoje quem escreve é Noele, uma mocinha adepta ao ceticismo que, por tanto praticá-lo acabou perecendo de seus males. É que ser descrente em relação aos sentimentos acaba tornando-te tão, mas tão seco e indiferente com o mundo que quando as pessoas começam a cobrar-lhe amor demais, compaixão demais e irmandade demais, você só consegue conservar o ódio por tal cobrança.

Por vezes também acho-me bem seca, bem insensível, é que não consigo compreender a razão para partilhar sentimentos benevolentes, assim como não entendo por exemplo o motivo pelo qual devo fazer tratamento dentário se minha avó que completa hoje 90 anos nunca mexeu em sua dentição inacreditavelmente perfeita. Mas voltemos ao tema central de meu texto... qual é o tema mesmo? Ah sim, a verdade é que não há tema, mas também não há nada de fidedigno aqui como já foi dito no começo deste enredo. Entretanto não há tema, não há verdade, acho que o que posso supor quanto ao que você querido (querido foi apenas para dar um tom enfático ao leitor, já que sou cética demais para ter alguém como querido) leitor está lendo, é que são palavras embaralhadas sem sentido algum, que cospem para o papel meus sentimentos mais profanos, mais imundos e lúgubres.

É que ultimamente minha vida tem sido bem desvairada, tenho frequentado muitos bares deploráveis, isso quando não bebo sozinha na sacada de meu prédio, uma garrafa de vinho barato, enquanto acabo com minha saúde em maços de cigarro. Tenho a impressão que tornei-me meio nauseabunda e meus dias seguem meio a mercê do destino. E que o destino traga-me um pouco de sensibilidade, um pouco de compaixão e quem sabe, se não for pedir muito, algum sentido para meu texto.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fatos cronológicos daquele pensamento matutino


Hoje o despertador tocou com aquele alarde extremamente irritante, meus olhos custaram a abrir, a cama estava quentinha e eu era a típica escrava de um sistema, no qual todos os assalariados devem acordar no exato momento programado e, então dar início a um ritual preparatório para um longo dia. Abri meus olhos com certa dificuldade e apertei o botão do celular que indicava que o despertador deveria parar. Hoje em dia não se usam mais relógios para despertar, isso é coisa passada, hoje eu apenas aperto o botão do telefone móvel e começo minha saga.
Eu ainda não entrei de cabeça no sistema, mas sentia que estava prestes a entrar, não por vontade própria, mas por puríssima premência. Afinal, vivemos num sistema capitalista, e adivinhem só do que eu precisava naquele momento? Capital! Precisava de ver a cor do dinheiro para suster meus sonhos, que para ser franca, não esbanjavam riqueza, apenas felicidade plena. Mas quem é que disse que a felicidade não é o dinheiro oras?  Para meu infortúnio, meus sonhos de viajar, ter uma casa simples, porém bela e ouvir uma boa música não era gratuitos.
Portanto me levantei, coloquei uma roupa neutra e fiz uma maquiagem que irradiava discrição. Entrei num ônibus lotado e me segurando nas beradas consegui me estabelecer em pé, de fronte a uma moça muito bonita. Eu estava ouvindo uma música, não me lembro o que era, mas me distraí olhando a rua, várias casas a venda, muitos apartamentos e, eu não me importava com o quão humildes eles eram, eu desejava todos eles, desejava ter um lugar meu, para chegar, acender um cigarro e assistir a um bom filme. Queria um lugar repleto de paz, onde pouco importasse minha conduta psicológica, sexual ou religiosa.
E eu viajava, ultrapassando barreiras de tempo e espaço, tal como os livros me provavam ser possível com o poder da imaginação e, atualmente, o maravilhoso advento da Internet provou o mesmo para minha querida irmã Alice (ela vive numa contemporaneidade impressionante e admirável).
Quando surgiu um banco, me sentei e mergulhei num livro que contava uma das aventuras de meu querido Mr. Poirot, em questão de minutos a realidade me gritou e eu fechei as portas do livro bem na hora que Poirot fazia uma consideração importantíssima! Desci do ônibus e fui pensando com meus miólos como seria o desenrolar daquela história... quanto ao meu dia? Pouco me importava como ele iria percorrer dali pra frente, eu não estava nervosa, ansiosa, tampouco apreensiva. Eu só queria que ele terminasse logo para que chegasse o dia seguinte e eu finalmente mudasse a cor do meu cabelo, assim como Clementine... mas isso já é outra história!