quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nada Semântico


A verdade é que já não há nada muito verídico nessa minha vida vil.
Tenho andado um tanto mendicante... às vezes falta-me dinheiro, amor, paixão, fulgor e quase sempre, quase sempre falta-me alegria. É que eu tendo enganar a mim mesma fingindo rir do emaranhado de desgraças que afligem meus dias.

Hoje quem escreve é Noele, uma mocinha adepta ao ceticismo que, por tanto praticá-lo acabou perecendo de seus males. É que ser descrente em relação aos sentimentos acaba tornando-te tão, mas tão seco e indiferente com o mundo que quando as pessoas começam a cobrar-lhe amor demais, compaixão demais e irmandade demais, você só consegue conservar o ódio por tal cobrança.

Por vezes também acho-me bem seca, bem insensível, é que não consigo compreender a razão para partilhar sentimentos benevolentes, assim como não entendo por exemplo o motivo pelo qual devo fazer tratamento dentário se minha avó que completa hoje 90 anos nunca mexeu em sua dentição inacreditavelmente perfeita. Mas voltemos ao tema central de meu texto... qual é o tema mesmo? Ah sim, a verdade é que não há tema, mas também não há nada de fidedigno aqui como já foi dito no começo deste enredo. Entretanto não há tema, não há verdade, acho que o que posso supor quanto ao que você querido (querido foi apenas para dar um tom enfático ao leitor, já que sou cética demais para ter alguém como querido) leitor está lendo, é que são palavras embaralhadas sem sentido algum, que cospem para o papel meus sentimentos mais profanos, mais imundos e lúgubres.

É que ultimamente minha vida tem sido bem desvairada, tenho frequentado muitos bares deploráveis, isso quando não bebo sozinha na sacada de meu prédio, uma garrafa de vinho barato, enquanto acabo com minha saúde em maços de cigarro. Tenho a impressão que tornei-me meio nauseabunda e meus dias seguem meio a mercê do destino. E que o destino traga-me um pouco de sensibilidade, um pouco de compaixão e quem sabe, se não for pedir muito, algum sentido para meu texto.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fatos cronológicos daquele pensamento matutino


Hoje o despertador tocou com aquele alarde extremamente irritante, meus olhos custaram a abrir, a cama estava quentinha e eu era a típica escrava de um sistema, no qual todos os assalariados devem acordar no exato momento programado e, então dar início a um ritual preparatório para um longo dia. Abri meus olhos com certa dificuldade e apertei o botão do celular que indicava que o despertador deveria parar. Hoje em dia não se usam mais relógios para despertar, isso é coisa passada, hoje eu apenas aperto o botão do telefone móvel e começo minha saga.
Eu ainda não entrei de cabeça no sistema, mas sentia que estava prestes a entrar, não por vontade própria, mas por puríssima premência. Afinal, vivemos num sistema capitalista, e adivinhem só do que eu precisava naquele momento? Capital! Precisava de ver a cor do dinheiro para suster meus sonhos, que para ser franca, não esbanjavam riqueza, apenas felicidade plena. Mas quem é que disse que a felicidade não é o dinheiro oras?  Para meu infortúnio, meus sonhos de viajar, ter uma casa simples, porém bela e ouvir uma boa música não era gratuitos.
Portanto me levantei, coloquei uma roupa neutra e fiz uma maquiagem que irradiava discrição. Entrei num ônibus lotado e me segurando nas beradas consegui me estabelecer em pé, de fronte a uma moça muito bonita. Eu estava ouvindo uma música, não me lembro o que era, mas me distraí olhando a rua, várias casas a venda, muitos apartamentos e, eu não me importava com o quão humildes eles eram, eu desejava todos eles, desejava ter um lugar meu, para chegar, acender um cigarro e assistir a um bom filme. Queria um lugar repleto de paz, onde pouco importasse minha conduta psicológica, sexual ou religiosa.
E eu viajava, ultrapassando barreiras de tempo e espaço, tal como os livros me provavam ser possível com o poder da imaginação e, atualmente, o maravilhoso advento da Internet provou o mesmo para minha querida irmã Alice (ela vive numa contemporaneidade impressionante e admirável).
Quando surgiu um banco, me sentei e mergulhei num livro que contava uma das aventuras de meu querido Mr. Poirot, em questão de minutos a realidade me gritou e eu fechei as portas do livro bem na hora que Poirot fazia uma consideração importantíssima! Desci do ônibus e fui pensando com meus miólos como seria o desenrolar daquela história... quanto ao meu dia? Pouco me importava como ele iria percorrer dali pra frente, eu não estava nervosa, ansiosa, tampouco apreensiva. Eu só queria que ele terminasse logo para que chegasse o dia seguinte e eu finalmente mudasse a cor do meu cabelo, assim como Clementine... mas isso já é outra história!

sábado, 22 de outubro de 2011

Date with the night

As notas musicais entravam por meus ouvidos e percorriam minha alma, e eu era apenas uma peça caricata daquele enredo, eu era uma peça imóvel, esperando que alguém me movesse. Eu sentia o gosto do cigarro e do álcool, fora isso sentia a música penetrando-me por inteira, mas os outros sentimentos... preferia reprimi-los apenas para não criar o pior de todos, a esperança. Sempre gostei de andar sem rumo e esperar que a vida me surpreenda, mas nunca esperar por algo específico, porque ruim mesmo é perder aquilo que nunca se teve. Alguns chamam de falhar ao tentar alcançar um ideal, mas eu... eu chamo de perca de sonhos, por isso se eu pudesse optaria por não sonhar, para não correr o risco de acordar decepcionada e me deparar com a cama vazia. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"- Uma colher de Chantilly por favor!"


Bom era quando uma colher de chantilly bastava para adocicar meu dia, quando eu me sentia renovada com o gosto açucarado em minha boca. E no capuccino... como era gostosa aquela substância alva tornando-o mais cremoso e saboroso! Hoje em dia não aprecio mais esses alimentos meigos que remetem aos meus oito ou nove anos.
Hoje em dia gosto dos cigarros com filtro vermelho, do café bem forte, da cerveja mais robusta e, até mesmo o chocolate, conservo uma íntima preferência por aqueles de sabor meio-amargo.
Parece que passado um tempo que percebemos que a vida não é tão afável quanto o chantilly, começamos a consumir amargura, começamos a optar por alimentos mais ácidos e por atividades mais complexas. Atualmente ainda tento pedir meu delicioso pospasto, mas o difícil mesmo é digeri-lo por completo. Acho que a vida acabou por acostumar-me ao azedume e, me enjoo facilmente de tudo que é adocicado demais, até mesmo das pessoas que são meigas demais eu me canso.
Não que eu goste da maldade, mas acho que a castidade em excesso é prejudicial e acabei por adquirir uma profunda aversão a tudo que se mostra por demais apurado ou politicamente correto.

Discurso

"Não tinha um adjetivo para o dia e desejei ficar triste,
Fui moer lembranças,
remoê-las com a areia pobre mas grossa
de minha desmesurada moela.
Em mim, tanto faz meu coração ou estômago,
já que nem pra rezar eu sei partir-me.
Como quem junta espigas pro moinho,
juntei uns cheiros de alho, de álcool, de sabonete,
um cheiro-malva de talco, uns gritos,
fezes que se pisou ao redor da casa
com cheiro não tanto repudiável
- podia-se limpá-las, mas não eram execráveis -,
a incúria colateral de vários pâncreas,
o Trypanosoma cruzi, várias cruzes no sangue, no exame,
nas covas, nas torres, no cordãozinho de ouro,
na forma de levantar os braços e dizer:
"Ó Pai, duro é este discurso, quem poderá entendê-lo?"
Se abrisse um sol sobre este dia incômodo,
eu rapava com enxada os excrementos,
punha fogo no lixo
e demarcava mais fácil os contornos da vida:
aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor,
onde um homem projeta o seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?
E às vezes fazendo a barba
ou insistindo no vinco de sua calça branca
que ele quer saber.
É às vezes aparando as unhas,
em nem sempre escolhidas horas,
que ele tem a resposta.
Um adjetivo para o dia, explica."

Adélia Prado

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Enredo de pensamentos trôpegos

A noite caía trazendo um fervor insuportável enquanto ela caminhava pelas ruas, há tempos não encontrava alguém interessante, alguém que partilhasse suas opiniões e desejos mais íntimos, há tempos não conservava relações duradouras com quaisquer pessoa, então, como acontecia em todos os dias com aspecto de sexta-feira, resolveu chamar seu melhor amigo para sentar em algum botequim sujo, desses onde o estado torpe do sujeito não incomoda a ninguém.
Eles estavam a rir e gozar de seu próprio estado vil, especialmente naquele dia abandonaram a política e as revoltas que possuíam com o sistema para pular de vez num estado ébrio. Logo após alguns copos encontraram-se com outros amigos e puseram-se a trocar confissões e causos duma época pueril.
E eis que em meio a uma fala e outra avistou um rosto conhecido, e ao cumprimentar a dona de tal semblante, se puseram a conversar, dividindo palavras entre goladas e tragos. Não que estivessem num estado de sanidade duvidoso, mas como que perdendo a noção de qualquer discrição, esta conhecida que acabara de se juntar à mesa olhou para ela no fundo de seus olhos e lascou-lhe um beijo.
Enquanto ela apenas movia sua língua de forma a acompanhar a outra, deixou o mecanismo tomar conta de seu corpo e pô-se a pensar em como a vida reservava-lhe várias surpresas, em grande parte desagradáveis. Ela não possuía a menor vontade de retribuir àquele beijo e, de fato não o estava fazendo, estava apenas evitando uma discussão maior. Foi exatamente quando chegou à conclusão de que só estava a esquivar-se de um constrangimento, que percebeu o quão estulta era ela... alguém que preferia atender à vontade alheia em detrimento de sua própria vontade apenas por não saber dizer não de forma agradável! Como se houvesse uma forma gentil de negar algo!
Não é não e, por mais que se tente amenizar o efeito da palavra, ela não é aprazível, tampouco dócil. No momento em que percebeu isso foi que concluiu que, sua negação não poderia ser maleável ou moldável, de forma a transformar-se facilmente num sim. Todavia, de nada adiantava seu desenlace àquela altura da história, quando a garota já estava a roçar em seus lábios. Ao menos utilizaria da desculpa de que estava em um estado um tanto quanto temulento.

sábado, 13 de agosto de 2011

Meio termo


Era como olhar para um quarto totalmente bagunçado e se perguntar "por onde eu começo?" oras, pelo começo, é aí que se começa.
Mas então, surge a segunda pergunta "E onde é o começo?".
O começo é aquele ponto que parece solucionar parte do problema e introduzir os demais, é como a introdução de uma narrativa, aquela que previamente apresenta a história e abre brechas para o desenvolvimento do texto, esse é o começo, a parte que anuncia todo o resto, que da o primeiro passo.
Entretanto, para que haja primeiro passo, é necessário que hajam também as pernas, os pés e o equilíbrio.
E eu não possuía nenhum dos requisitos, eu era um ser plasta, um ser inerte em minha própria bolha, esse era eu. E em meio a toda aquela bagunça, eu tentava distinguir o melhor caminho para fabricar pernas, pés e equilíbrio, entretanto, faltava-me a coragem, faltava-me a atitude.
Justo eu, que sempre gostei dos extremos, me encontrava entalado na metade. Eu não era lava nem gelo, eu não era brisa nem ventania, eu não era doce nem azedo, eu não fedia nem cheirava, eu era aquela coisa sem sal, aquela coisa sem cor, que não chama atenção de ninguém, que pela primeira vez na vida não tinha nem mesmo opinião a não ser o não sei.
Eu era um nada no meio de um emaranhado de papéis, eu era a mente confusa que em meio à exaustão pifou e parou de funcionar no meio da estrada, então eu parei e me sentei ali no acostamento, para assistir a banda passar, para ver o sol nascer, para ver o sol se por, para ver a lua irradiar, para ver e sentir, mas nunca para participar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

"A poluição é o tempero da marmita fria"


Às vezes sou como o vento, que corre por todos os cantos do mundo, e não se apega a lugar algum....
Por vezes é bom ser completamente desapegada e quando me vejo enjaulada junto a uma ideia, prefiro a morte a continuar nesse estado de completa dependência.
Me lembro quando uma velha amiga me disse "você é como uma fênix, que some e de vez em quando renasce das cinzas". Sou um pouco assim, meio desafeiçoada às pessoas, gosto de ter alguém ao meu redor, mas vivo uma eterna mutação com meu ciclo de amizades também.
Quando me vejo agarrada a uma situação da qual sou impossibilitada de abandonar e seguir em frente, é nessa hora que sinto medo, é nessa hora que prevejo a desgraça... podem julgar-me covarde, mas digo que é apenas um estilo de vida, uma espécie de natureza humana que se enquadra em mim.
Sou como o vento, que gosta de estar ali, presente em todos os lugares, sem ser percebido, sem ser notado, mas que de forma inconsciente todos sabem da minha existência, todos sabem que estou ali, mesmo sem ser visto.
E hoje... hoje eu, brisa suave, gostaria de transformar-me numa ventania repentina, e derrubar tudo ao meu redor, hoje gostaria de por um momento escapar da presença constante do mundo ao meu redor e ter um instante de paz.
Hoje eu, aragem, quero derrubar folhas e árvores, quero mostrar que nem sempre a culpa é minha por eu estar assim, tão impuro... tão prejudicial.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Hediondo espetáculo


Não, a verdade é que não sinto nada.
No que se refere a meus próprios sentimentos, estou anestesiada, não sou capaz de sentir nada, exceto pena.
Foi-se o tempo em que eu sentia medo... em que as lágrimas teimavam em cair...
Agora vejo um livro aberto todo sujo de cinzas... na verdade as cinzas são a ilustração da sua história, tão recheada de cigarros... e o perfume? Ah, sinto o cheiro de cerveja, não gasto palavras bonitas tentando embelezar minha história com um bom vinho ou whiskey, o cheiro daquela história era de cerveja... cerveja áustria.
E naquela página em especial, você estava cambaleando e, naquela altura da história eu achava engraçado seu estado deplorável, totalmente dependente de químicos, mas não achava engraçado por ser eu uma pessoa má, achava engraçado por estar tão cansada. Tão cansada de te odiar e de derramar lágrimas, estava cansada de sentir meu corpo se enfraquecer e as náuseas surgirem, e tudo o que eu sentia era nojo do bafo de cerveja que escapava da boca do livro em minhas mãos.
Resolvi abandoná-lo por certo tempo, apenas o tempo exato para que você, a protagonista daquela história aloprada, se curasse e, eu pudesse rir sem julgar-me uma pessoa ruim, eu pudesse fumar sem me comparar a você e beber daquela cerveja estupidamente gelada sem sentir o cheiro que exalava daquelas páginas mofadas.
Só sinto por vezes um certo receio de abandonar de vez a leitura, já que sempre me interessei tanto pelos livros... mas hei de arcar com as consequências de um dia interessar-me por histórias tão sórdidas.
E já que estou falando sobre você, o personagem principal, aquele que ainda não saiu de minha mente, sei que ainda sinto pelo menos um interesse pelo desenrolar da história, sei que ainda sou a garota curiosa que segura as mãos para não pegar aquele livro enquanto não curo meus pulmões da fumaça que por ele exala.

Aventura na Casa Atarracada

"Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora, 
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa."

Ana Cristina Cesar 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Insasiável...


Não há o que escrever, pois o vinho engarrafou minhas palavras...
E não há o que sentir em meio a toda esta embriaguez.
Lembrei-me há pouco daquela conversa que há cerca de uma semana tivemos na varanda... onde eu ainda me preocupava em esconder a fumaça, em esconder o vício e em esconder o maço de cigarros... aquele mesmo, que ficou jogado na mesa!
Lembrei-me de quando falamos sobre os motivos para se fazer as coisas, e ri baixinho pensando no quão desprezíveis somos nós.
Porque não há razões e, de certa forma isso é bom, pois agimos pelo instinto, entretanto me sinto talvez mais animal, e quando digo animal, faço referência à irracionalidade que se apossa de nossa consciência quando sabemos que não deveríamos e ainda assim fazemos determinada coisa.
A verdade é que não é amor, não é paixão,  não é ódio, tampouco é tristeza. 
É desejo, dos mais cruéis e carnais possíveis...
Desejo pelo que não nos pertence e pelo sujo, mas que torna a vontade insuportável.
Lembro de certa vez que uma amiga me disse... "Quando eu quero eu consigo, quando eu preciso eu corro atrás". Essa frase sempre persistiu muito na minha cabeça, porque gosto de palavras fortes, daquelas que mostram-se decididas a fazer mesmo o que dizem... talvez seja por isso que meus desejos gritam por atenção e não admitem o fato de não serem atendidos ou compreendidos.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Janela das saudades

O relógio acabara de tocar seis da tarde quando Clarice se apressou em direção à janela, seus olhos corriam ansiosos pela rua, em busca daquela camisa xadrez e daquele doce sorriso que vinha de encontro ao seu. Então de súbito percebeu que toda sua espera não passava de uma vã ilusão e aos poucos sentiu um nó formar-se em sua garganta, acompanhado do amargo gosto da solidão.
As palavras aos poucos desapareciam do alcance de sua voz, elas formavam um grito interno ensurdecedor, que pedia por atenção e, por vezes tentava escapar por entre seus lábios. Ela queria apenas despejar todo aquele ódio que guardou dentro de si ao perceber que não havia ninguém, nenhum carro em sua porta ao sexto bater dos sinos. Entretanto, ao invés de vomitar todo aquele rancor em forma de palavras sujas, ela apenas repetia consigo mesma “Falai baixo, se falais de amor”¹, pois afinal, o que é o ódio senão o complemento do amor? A paixão sem a ira é como vencer uma guerra sem batalhar, não surte grandes emoções!
Clarice se debruçava sobre o parapeito da janela tentando se adaptar à idéia de que hoje seu amor não viria vê-la. Nunca fora uma garota tão sonhadora a ponto de crer na eternidade das coisas ou naquele “felizes para sempre” que lia nos contos de fadas, mas não acreditar não equivale a não querer, e a dor de se perder um sonho era ruim, ainda que ela não confiasse na veracidade deles.
A verdade é que passamos uma época da vida colecionando emoções, e outra, colecionando saudades ², e para aquela doce garota, agora era tempo de colecionar lembranças do ontem, quando as emoções se mostravam à flor da pele e ela nem mesmo percebia que possuía um verdadeiro depósito de sentimentos. Hoje, ao olhar pela janela ela não via o presente, mas sim as recordações que guardava em sua mente, hoje a janela sobre a qual ela se debruçava fugia do mundo físico e se mostrava presente apenas em suas idéias, onde ela passava seu batom cor de rosa e esperava seu amor buscá-la para um breve passeio no parque.
Agora era tempo de perceber que o ontem passou e, de sentir aquele gosto agridoce da nostalgia invadir seus dias sem ao menos pedir licença. Era bom lembrar-se do passado, mas como doía essa tal de saudades! Nós, seres humanos, nos machucamos facilmente e somos totalmente frágeis quando o assunto diz respeito a sentimentos, e se há algo que, por mais que desejemos colecionar, preferimos que continue a existir são os momentos. Clarice se apegava a cada instante, assim como também o faço, e creio que também o façam o João, a Maria e você, meu caro leitor. Se não fossemos todos volúveis aos momentos não haveria a palavra nostalgia para descrever o que sentimos ao colecionar saudades.
Todavia, não há de se pensar que, porque todos sentem a tal da saudade, devemos alimentá-la hoje sem pensar que existe um amanhã a nos esperar. Foi exatamente o que Clarice fez, lembrou-se de certa vez que leu em um livro de citações uma frase que dizia “Amanhã será o primeiro dia do resto da minha vida” ³, então rabiscou aquele amanhã mentalmente de tal frase, substituindo pelo hoje. Não iria esperar até amanhã, assistindo a felicidade passar pela janela de suas lembranças.
Clarice fechou a janela e guardou seus sentimentos junto às suas memórias, deixando de fora apenas saudades, para vez ou outra trocar figurinhas de sua coleção com um amigo. Pois há como engolir gritos, mas não palavras e, contar momentos é de fato algo do qual nos orgulhamos. Contar que um dia qualquer meu amor sumiu de meu campo de visão e, não ouvi a campainha tocar, que vou me conformar, pois afinal não acredito mesmo em histórias de amor, mas nem por isso deixo de sentir saudades.

¹”Falai Baixo, se falais de amor” – Shakespeare
²”Passamos uma época da vida colecionando emoções, e outra, colecionando saudades” – Paulo Bonfim
³ “Amanhã será o primeiro dia do resto da minha vida” - Anônimo

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Instantes de desatinação

Gostaria de devolver-te a sanidade e fazer claras tuas idéias.
Gostaria de não ter que olhar teus olhos sedentos por sangue a cada dia de minha vida.
Seus lampejos de alucinações fazem meu sangue ferver provocando um grito que tornam surdas minhas ideias.
Então perco eu o poder de pensar e alcançar um ideal, perco eu o desejo de ajudar-te, perco eu... me perco... te perco.
Sinto o cheiro repugnante de suas palavras pairando no ar, e minha vontade é de esmagá-la até transformar-te em pó... então lembro que esta que alimenta meu ódio não é você, e sim no que tem se tornado, lembro que ainda que você não seja a mais doce das criaturas existentes no mundo, é especial por ser  você.
E inesperadamente meu ódio transforma-se em amor, em tristeza, em mágoa e em nó na garganta.
Meus olhos se petrificam e eu percebo que não posso sequer lacrimejar, pois o ser humano é uma criatura adaptável, e até mesmo eu já me adaptei com o eterno devaneio de nossos dias.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Strangers feelings

Quisera eu poder abandonar minhas várias vontades, assim como a falta delas.
Quisera eu olhar em teus olhos e sentir aquele fogo subir por meu estômago e sair ardente num forte beijo em teus lábios. Pergunto-me quando me abstraí de todos aqueles sentimentos que ferviam em minhas entranhas e a resposta sempre foge pelas entrelinhas de minhas ideias, como se desejassem escapar de meu entendimento.
É totalmente inconcebível que algo tão forte possa sumir tão repentinamente.
Quisera eu poder compreender a essência das coisas, das pessoas e de suas ações.
Quisera eu poder entender-me.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fascination Street

O sol nascia clareando o dia, e Clara acordava tentando clarear sua mente.
Quanto excesso de coisas claras!
Agora tudo é assim, muito claro perante os olhos de quem lê, mas naquele amanhecer tudo estava extremamente escuro ao ver daquela garota.
As lágrimas teimavam em descer enquanto ela lutava para aparentar uma força que não lhe pertencia.
E de repente, surgia um turbilhão de informações tomando conta de seus pensamentos, na verdade uma tempestade de mentiras fazia o possível e o impossível para convencê-la de que eram verdades.
E nenhuma daquelas historiazinhas que tentavam se passar por reais se encaixavam no contexto situacional ao qual ela se inseria. Por isso todo aquele esforço para mostrar-se genuíno era inútil e apenas servia como base para comprovar a fantasia de uma mente adoecida pelo cansaço.
Repentinamente a raiva tomava conta de seu corpo e transparecia em suas expressões de garota farta por viver em meio a uma bagunça de idéias e de objetos ao seu redor. Não sabia de que exatamente sentia raiva, talvez por não poder fazer nada a respeito dos problemas que lhe transtornavam.
Às vezes a melhor ideia que lhe passava pela cabeça era fujir, fujir do nascer do sol naquele lugar onde as soluções nunca apareciam para clarear as suas ideias.
Era quando percebia o quão ruim poderia ser se adaptar à insanidade alheia e o quanto custava fazê-lo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Birds

As notas de música entravam em seus ouvidos como se passeassem por ali a procura de diversão numa sexta-feira a noite.
Loucura, realidade, amor, amigos, família, religião e um emaranhado de ideias, pré-ideias, pseudo-assuntos, palavras e sentimentos.
E via como tudo já foi e em que tudo se tornou.
E às vezes se enlouquecia em meio às lembranças enquanto olhava para um livro intitulado "A articulação do texto".
Mas as fotos, as fotos sempre a encantaram!
As fotos capturam bons momentos e isso a encanta nelas! Por isso todas as vezes que folheava fotografias ficava assim, meio nostálgica, meio fora de sí, fora do mundo, em sintonia com o nada.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Eloqüência

Fui o que precisava e também o que não precisava.
Me construí e desconstruí inúmeras vezes até perceber que ver minha face contra a parede uma só vez não era o suficiente.
E hoje ainda sinto os resquícios daquela vida passada.
Ainda me traço em uma tentativa eterna de encontrar a perfeição e sempre encontro-me debatendo com a dialética Aristotélica.
Desenho uma tese e a nego, e depois a nego novamente... e nego a negação.
Eternamente uma metamorfose e se por algum acaso me perguntam quem eu sou, digo que não a mesma que ontem e tampouco quem serei amanhã.
Talvez por isso ouvi palavras cortantes dizendo coisas amargas em meus ouvidos enquanto envolviam-me em seus braços.
E sim, as palavras cortam, talvez além e mais profundo do que as facas, porque se estas arrancam sangue de minha pele, palavras fazem com que ele caia de meus olhos.
E se elas não possuem meu físico que é uma eterna mudança, estavam inteiramente corretas ao dizer que sabiam possuir meu coração.

Ah queridas palavras!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Pain That I'm Used To

Certa vez li sobre uma garota que acordava e achava a cama cheia demais quando havia alguém ao seu lado, e vazia demais quando esse alguém ia embora.
Hoje não achei a cama vazia, me achei vazia, cheia de nada.
O sol entrava pela janela, mas não esclarecia minhas idéias, pensei em tudo para fugir de meus próprios pensamentos e, quando finalmente desisti, percebi que não havia pensamentos em minha mente para que eu tentasse esquecê-los.
Não havia, porque eu não sabia no que pensar me sentindo tão estranhamente sozinha.
E lembrei-me das palavras de uma garota importante, que me dizia que meu destino era ser uma velha solitária com a casa cheia de gatos, cheguei a acreditar que seria verdade, e peguei minha pequenina gata de conversa.
Mas animais não falam a nossa preciosa língua, aliás, ainda se falassem não falariam conosco, nem nos escutariam em um momento de desabafo. Percebi quando meu gracioso animal deitou em sua completa inércia e continuou emanando aquela elegância que lhe pertencia.
Por um momento me senti em casa, me senti em família, talvez por ser eu tão egoísta quanto aquele animal e por me julgar tão dona de mim às vezes.
Doce utopia! Tampouco sou eu dona, quanto mais de mim mesma!
Percebi que a cama estava cheia de sol, de mim e de minha gata.
E não, ela não estava vazia, mas eu estava, estava completamente desorientada.