A verdade é que já não há nada muito verídico nessa minha vida vil.
Tenho andado um tanto mendicante... às vezes falta-me dinheiro, amor, paixão, fulgor e quase sempre, quase sempre falta-me alegria. É que eu tendo enganar a mim mesma fingindo rir do emaranhado de desgraças que afligem meus dias.
Hoje quem escreve é Noele, uma mocinha adepta ao ceticismo que, por tanto praticá-lo acabou perecendo de seus males. É que ser descrente em relação aos sentimentos acaba tornando-te tão, mas tão seco e indiferente com o mundo que quando as pessoas começam a cobrar-lhe amor demais, compaixão demais e irmandade demais, você só consegue conservar o ódio por tal cobrança.
Por vezes também acho-me bem seca, bem insensível, é que não consigo compreender a razão para partilhar sentimentos benevolentes, assim como não entendo por exemplo o motivo pelo qual devo fazer tratamento dentário se minha avó que completa hoje 90 anos nunca mexeu em sua dentição inacreditavelmente perfeita. Mas voltemos ao tema central de meu texto... qual é o tema mesmo? Ah sim, a verdade é que não há tema, mas também não há nada de fidedigno aqui como já foi dito no começo deste enredo. Entretanto não há tema, não há verdade, acho que o que posso supor quanto ao que você querido (querido foi apenas para dar um tom enfático ao leitor, já que sou cética demais para ter alguém como querido) leitor está lendo, é que são palavras embaralhadas sem sentido algum, que cospem para o papel meus sentimentos mais profanos, mais imundos e lúgubres.
É que ultimamente minha vida tem sido bem desvairada, tenho frequentado muitos bares deploráveis, isso quando não bebo sozinha na sacada de meu prédio, uma garrafa de vinho barato, enquanto acabo com minha saúde em maços de cigarro. Tenho a impressão que tornei-me meio nauseabunda e meus dias seguem meio a mercê do destino. E que o destino traga-me um pouco de sensibilidade, um pouco de compaixão e quem sabe, se não for pedir muito, algum sentido para meu texto.





