sábado, 22 de outubro de 2011

Date with the night

As notas musicais entravam por meus ouvidos e percorriam minha alma, e eu era apenas uma peça caricata daquele enredo, eu era uma peça imóvel, esperando que alguém me movesse. Eu sentia o gosto do cigarro e do álcool, fora isso sentia a música penetrando-me por inteira, mas os outros sentimentos... preferia reprimi-los apenas para não criar o pior de todos, a esperança. Sempre gostei de andar sem rumo e esperar que a vida me surpreenda, mas nunca esperar por algo específico, porque ruim mesmo é perder aquilo que nunca se teve. Alguns chamam de falhar ao tentar alcançar um ideal, mas eu... eu chamo de perca de sonhos, por isso se eu pudesse optaria por não sonhar, para não correr o risco de acordar decepcionada e me deparar com a cama vazia. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"- Uma colher de Chantilly por favor!"


Bom era quando uma colher de chantilly bastava para adocicar meu dia, quando eu me sentia renovada com o gosto açucarado em minha boca. E no capuccino... como era gostosa aquela substância alva tornando-o mais cremoso e saboroso! Hoje em dia não aprecio mais esses alimentos meigos que remetem aos meus oito ou nove anos.
Hoje em dia gosto dos cigarros com filtro vermelho, do café bem forte, da cerveja mais robusta e, até mesmo o chocolate, conservo uma íntima preferência por aqueles de sabor meio-amargo.
Parece que passado um tempo que percebemos que a vida não é tão afável quanto o chantilly, começamos a consumir amargura, começamos a optar por alimentos mais ácidos e por atividades mais complexas. Atualmente ainda tento pedir meu delicioso pospasto, mas o difícil mesmo é digeri-lo por completo. Acho que a vida acabou por acostumar-me ao azedume e, me enjoo facilmente de tudo que é adocicado demais, até mesmo das pessoas que são meigas demais eu me canso.
Não que eu goste da maldade, mas acho que a castidade em excesso é prejudicial e acabei por adquirir uma profunda aversão a tudo que se mostra por demais apurado ou politicamente correto.

Discurso

"Não tinha um adjetivo para o dia e desejei ficar triste,
Fui moer lembranças,
remoê-las com a areia pobre mas grossa
de minha desmesurada moela.
Em mim, tanto faz meu coração ou estômago,
já que nem pra rezar eu sei partir-me.
Como quem junta espigas pro moinho,
juntei uns cheiros de alho, de álcool, de sabonete,
um cheiro-malva de talco, uns gritos,
fezes que se pisou ao redor da casa
com cheiro não tanto repudiável
- podia-se limpá-las, mas não eram execráveis -,
a incúria colateral de vários pâncreas,
o Trypanosoma cruzi, várias cruzes no sangue, no exame,
nas covas, nas torres, no cordãozinho de ouro,
na forma de levantar os braços e dizer:
"Ó Pai, duro é este discurso, quem poderá entendê-lo?"
Se abrisse um sol sobre este dia incômodo,
eu rapava com enxada os excrementos,
punha fogo no lixo
e demarcava mais fácil os contornos da vida:
aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor,
onde um homem projeta o seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?
E às vezes fazendo a barba
ou insistindo no vinco de sua calça branca
que ele quer saber.
É às vezes aparando as unhas,
em nem sempre escolhidas horas,
que ele tem a resposta.
Um adjetivo para o dia, explica."

Adélia Prado

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Enredo de pensamentos trôpegos

A noite caía trazendo um fervor insuportável enquanto ela caminhava pelas ruas, há tempos não encontrava alguém interessante, alguém que partilhasse suas opiniões e desejos mais íntimos, há tempos não conservava relações duradouras com quaisquer pessoa, então, como acontecia em todos os dias com aspecto de sexta-feira, resolveu chamar seu melhor amigo para sentar em algum botequim sujo, desses onde o estado torpe do sujeito não incomoda a ninguém.
Eles estavam a rir e gozar de seu próprio estado vil, especialmente naquele dia abandonaram a política e as revoltas que possuíam com o sistema para pular de vez num estado ébrio. Logo após alguns copos encontraram-se com outros amigos e puseram-se a trocar confissões e causos duma época pueril.
E eis que em meio a uma fala e outra avistou um rosto conhecido, e ao cumprimentar a dona de tal semblante, se puseram a conversar, dividindo palavras entre goladas e tragos. Não que estivessem num estado de sanidade duvidoso, mas como que perdendo a noção de qualquer discrição, esta conhecida que acabara de se juntar à mesa olhou para ela no fundo de seus olhos e lascou-lhe um beijo.
Enquanto ela apenas movia sua língua de forma a acompanhar a outra, deixou o mecanismo tomar conta de seu corpo e pô-se a pensar em como a vida reservava-lhe várias surpresas, em grande parte desagradáveis. Ela não possuía a menor vontade de retribuir àquele beijo e, de fato não o estava fazendo, estava apenas evitando uma discussão maior. Foi exatamente quando chegou à conclusão de que só estava a esquivar-se de um constrangimento, que percebeu o quão estulta era ela... alguém que preferia atender à vontade alheia em detrimento de sua própria vontade apenas por não saber dizer não de forma agradável! Como se houvesse uma forma gentil de negar algo!
Não é não e, por mais que se tente amenizar o efeito da palavra, ela não é aprazível, tampouco dócil. No momento em que percebeu isso foi que concluiu que, sua negação não poderia ser maleável ou moldável, de forma a transformar-se facilmente num sim. Todavia, de nada adiantava seu desenlace àquela altura da história, quando a garota já estava a roçar em seus lábios. Ao menos utilizaria da desculpa de que estava em um estado um tanto quanto temulento.