O difícil mesmo é escrever em terceira pessoa, utilizando um sujeito diferente do Eu, fujindo dessa idéia narcisa de que o Eu é o centro do mundo e automaticamente tem de se tornar o centro da escrita e da arte.
Há quem diga que não consegue escrever fugindo do eu, o que torna difícil a dissertação e os textos mais práticos que lemos nos jornais, o que torna difícil a literatura e até mesmo uma simples revista contendo futilidades adolescentes.
A grande verdade é que com o tempo, tudo se tornou eu, até mesmo os grandes e consagrados autores precisam se tornar um pseudônimo ao escrever a respeito de um personagem quaisquer, pelo simples gosto de utilizar a primeira pessoa.
A primeira pessoa não deixa de ser arte por isso, e não se torna menos valiosa, mas não há quem negue, que é admirável quem consiga escrever em uma completa terceira pessoa, fujindo de seu próprio ego, e das raízes do individualismo contido no eu.
Ao dizer eu, nos fechamos em um mundo particular, onde podemos ser apenas eu, quando faço relação a algo externo de mim mesmo, posso ser ela ou ele, posso ser Ana, Maria, Lucas ou João e ainda posso não ser ninguém e escrever algo coeso e belo.
Admirável mesmo, é a fuga do próprio mundo, é sair de um estado de super-ego e não apenas adotar outro nome, mas encarnar outro nome, encarnar uma vida exterior à introspectiva imediata que sofremos ao ver a folha e o papel na mão.
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