quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Enredo de pensamentos trôpegos

A noite caía trazendo um fervor insuportável enquanto ela caminhava pelas ruas, há tempos não encontrava alguém interessante, alguém que partilhasse suas opiniões e desejos mais íntimos, há tempos não conservava relações duradouras com quaisquer pessoa, então, como acontecia em todos os dias com aspecto de sexta-feira, resolveu chamar seu melhor amigo para sentar em algum botequim sujo, desses onde o estado torpe do sujeito não incomoda a ninguém.
Eles estavam a rir e gozar de seu próprio estado vil, especialmente naquele dia abandonaram a política e as revoltas que possuíam com o sistema para pular de vez num estado ébrio. Logo após alguns copos encontraram-se com outros amigos e puseram-se a trocar confissões e causos duma época pueril.
E eis que em meio a uma fala e outra avistou um rosto conhecido, e ao cumprimentar a dona de tal semblante, se puseram a conversar, dividindo palavras entre goladas e tragos. Não que estivessem num estado de sanidade duvidoso, mas como que perdendo a noção de qualquer discrição, esta conhecida que acabara de se juntar à mesa olhou para ela no fundo de seus olhos e lascou-lhe um beijo.
Enquanto ela apenas movia sua língua de forma a acompanhar a outra, deixou o mecanismo tomar conta de seu corpo e pô-se a pensar em como a vida reservava-lhe várias surpresas, em grande parte desagradáveis. Ela não possuía a menor vontade de retribuir àquele beijo e, de fato não o estava fazendo, estava apenas evitando uma discussão maior. Foi exatamente quando chegou à conclusão de que só estava a esquivar-se de um constrangimento, que percebeu o quão estulta era ela... alguém que preferia atender à vontade alheia em detrimento de sua própria vontade apenas por não saber dizer não de forma agradável! Como se houvesse uma forma gentil de negar algo!
Não é não e, por mais que se tente amenizar o efeito da palavra, ela não é aprazível, tampouco dócil. No momento em que percebeu isso foi que concluiu que, sua negação não poderia ser maleável ou moldável, de forma a transformar-se facilmente num sim. Todavia, de nada adiantava seu desenlace àquela altura da história, quando a garota já estava a roçar em seus lábios. Ao menos utilizaria da desculpa de que estava em um estado um tanto quanto temulento.

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