domingo, 12 de fevereiro de 2012

Processo digestivo


Por vezes as palavras insistem em querer sair, mas eu sei o quanto são perigosas, o quanto podem contundir, então vou engolindo letra por letra, até formar versos em meu âmago.

A principio engulo as letras de uma vez, como se fossem comprimidos, porém empurro-as com um grande gole de cerveja. Elas descem como se fossem uma daquelas capsulas bem grandes de remédio, que se não descem em uma forte golada, acabam entalando na garganta.

Este é o primeiro efeito colateral do qual sofro deglutindo pílulas cheias de palavras que não posso dizer. Minha garganta começa a doer e, tentando conter a dor, meus olhos enchem de lágrimas, elas não saem porque não há necessidade, acho que só surgiram mesmo porque fiquei entalada. Sinto como se meu esôfago fosse um buraco que mantém uma ligação quase espiritual entre minha garganta e meu estômago, onde as letrinhas vão ainda inteiras dentro das capsulas. Quando elas caem em meu estômago ele começa a quebra das pílulas, e as letras são libertas. Elas não são formadas por proteínas, ou gordura, ou carboidratos,  elas são formadas por sentimentos, por isso não são quebradas dando sequência ao processo digestivo, elas param ali e ficam estagnadas, a espera das outras letras e, na medida em que elas vão chegando são compostos textos.

É engraçado o processo ao qual se submetem as letras quando estão formando textos, parece que elas não tem consciência de que estão em meu estômago e ficam se movimentando como borboletas, voando e exalando uma beleza surreal. Às vezes as palavras tem uma temperatura divertida que me dão um frio na barriga, um frio que, em determinados momentos me engole por inteira e me faz arrepiar de uma forma desesperadora. Este é o segundo efeito colateral de digerir letras.

Logo após toda esta movimentação que acontece em meu íntimo, enfim são formadas frases. É quando surge o terceiro e mais perigoso efeito colateral, eu penso, repenso, reflito e tento decodificar cada palavra que forma textos dentro de mim. Nesta parte as pessoas tornam-se vulneráveis à loucura, qualquer pessoa que se submete a determinado tratamento sabe que corre riscos, que podem ser muito perigosos, podem ser passageiros ou permanentes, e podem levá-las a medidas drásticas.

Por vezes, não suporto este terceiro efeito de meu rigoroso tratamento e tento vomitar as palavras, porém como elas são apenas essência, é muito difícil repeli-las para longe de mim. Quando falho tentando expelir tudo aquilo de meu organismo, torno-me fraca e caio num ciclo vicioso.

No esforço de livrar-me da dor, muitas vezes tento a overdose das pílulas que guardam letras. Entretanto sou mesmo uma fracassada no quesito suicídio, sempre fico muito dopada, exalando letras pelos poros, corroendo-me por dentro no constante movimento que ocorre na construção de palavras.

Quem sabe um dia eu consiga transportá-las para minhas cordas vocais e transformá-las em ondas sonoras, quem sabe um dia... 

2 comentários:

Tullio Dias disse...

Todo esse papo digestivo me deixou com muita fome. :P

Amanda Kimie disse...

fome de letras.
Lindo lindo!