quinta-feira, 10 de maio de 2012

A última página



Fechou a última página de seu livro e sentiu como se arrancasse uma parte de seu corpo.
Ela amava as palavras, amava o efeito eloquênte que elas causavam em seu íntimo.
Fechar a última parte era como desmoronar parte de seu mundo.
Era cruel a forma como ela se apaixonava lentamente por personagens, como as palavras a seduziam, a encantavam e, no final, fechava o livro e o guardava na estante, ao lado de outro que, provavelmente passara pelo mesmo processo.
Mas ao mesmo tempo que o final a destruía, a encantava, ele modificava parte de seu mundo.
Histórias contém mais, muito mais que palavras e personagens.
Elas contém uma forte personalidade que te constrói e desconstrói à medida que passam pelos olhos e penetram as ideias.
Por isso a sensação produzida é uma transição lenta entre o vazio e o êxtase.
O primeiro passo para construir algo, é possuir um espaço vazio.
E quando eu fecho o livro, sinto um vazio enorme, um vazio amedrontador, um vazio que me leva a uma série de questões. As questões a princípio estão embaralhadas, mas à medida que me lembro da Maria, do Antoine,  Ernest e Gertrude, as ideias vão surgindo como um feixe de luz, e fica fácil organizá-las, discuti-las, modificar-me.

Ela fechou o livro e, com certa tristeza, sentiu-se mais sábia. Despediu-se daquela personagem à qual se apegara de forma tão intensa e a agradeceu por ajudar a construí-la, colocou o livro na estante e esperou que, durante a noite os personagens acordassem e conversassem entre sí, como num curta-metragem que vira em um dia qualquer de sua vida. Esperou que eles tornassem mais completos uns aos outros e, nunca morressem, ainda que ficassem ali, aparentemente estáticos sobre prateleiras.

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