terça-feira, 19 de julho de 2011

Hediondo espetáculo


Não, a verdade é que não sinto nada.
No que se refere a meus próprios sentimentos, estou anestesiada, não sou capaz de sentir nada, exceto pena.
Foi-se o tempo em que eu sentia medo... em que as lágrimas teimavam em cair...
Agora vejo um livro aberto todo sujo de cinzas... na verdade as cinzas são a ilustração da sua história, tão recheada de cigarros... e o perfume? Ah, sinto o cheiro de cerveja, não gasto palavras bonitas tentando embelezar minha história com um bom vinho ou whiskey, o cheiro daquela história era de cerveja... cerveja áustria.
E naquela página em especial, você estava cambaleando e, naquela altura da história eu achava engraçado seu estado deplorável, totalmente dependente de químicos, mas não achava engraçado por ser eu uma pessoa má, achava engraçado por estar tão cansada. Tão cansada de te odiar e de derramar lágrimas, estava cansada de sentir meu corpo se enfraquecer e as náuseas surgirem, e tudo o que eu sentia era nojo do bafo de cerveja que escapava da boca do livro em minhas mãos.
Resolvi abandoná-lo por certo tempo, apenas o tempo exato para que você, a protagonista daquela história aloprada, se curasse e, eu pudesse rir sem julgar-me uma pessoa ruim, eu pudesse fumar sem me comparar a você e beber daquela cerveja estupidamente gelada sem sentir o cheiro que exalava daquelas páginas mofadas.
Só sinto por vezes um certo receio de abandonar de vez a leitura, já que sempre me interessei tanto pelos livros... mas hei de arcar com as consequências de um dia interessar-me por histórias tão sórdidas.
E já que estou falando sobre você, o personagem principal, aquele que ainda não saiu de minha mente, sei que ainda sinto pelo menos um interesse pelo desenrolar da história, sei que ainda sou a garota curiosa que segura as mãos para não pegar aquele livro enquanto não curo meus pulmões da fumaça que por ele exala.

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